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Outra surpresa!
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN - CIDADÃO PAULISTANO
No dia 27 de abril, a Câmara Municipal de São Paulo, numa solenidade singular e inovadora, e por iniciativa do vereador Carlos Giannazi, outorgou ao escritor, cineasta, jornalista e professor João Silvéiro Trevisan, também reconhecido como um dos pioneiros militantes do movimento GLS no Brasil, o título de Cidadão Paulistano. Eu estive na solenidade, como amigo de adolescência e colega de profissão, para dar meu depoimento pessoal a respeito da experiência cinematográfica do homenageado. Confesso que num primeiro momento me senti tão constrangido - quanto o próprio Trevisan - em estar presente ao austero plenário da Câmara e integrar o elenco do que eu imaginei ser uma enfadonha (e - com o perdão da palavra - careta) cerimônia. De pronto, o vereador Giannazi implodiu toda formalidade convencional exibindo, como mensagem ao laureado, um trecho do show de Gilberto Gil, onde ele canta a explosiva e libertária "SUPER-HOMEM, A CANÇÃO", ao lado de Caetano Veloso. Na série de depoimentos, discursos e leituras de trechos da obra do escritor, poucas vezes - acho eu - se falou tanto naquele plenário de uma palavra tão revolucionária: amor. Amor ágape e amor físico. Falou-se muito também de tolerância, originalidade, inteligência, solidariedade, dissidência, rebeldia e inovação; outras palavras tão incomuns em ambiente tão político. Confinado aos dez minutos de meu depoimento deixei de expressar de forma mais ambrangente a minha admiração pelo cineasta e intelectual Trevisan. Da minha experiência como diretor de fotografia e operador de câmera de seu único longa metragem, o visceral e niilista ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA (1970), aprendi a importância da disciplina no procedimento criativo. Mesmo aberto ao improviso constante, Trevisan mantinha o tempo inteiro um rigor e um nível de exigência quase monástica consigo mesmo e com seus assistentes, técnicos e atores. Para cada cena filmada Trevisan nos introduzia obras deflagradoras, autores insurgentes e pensadores libertários. Revendo trechos do filme, na abertura da solenidade, pude perceber o quanto a estética de seu cinema o aproximou de Pasolini e Buñuel; o quanto o filme é tributário de sua impertinência intelectual e impregnada pela sua admiração por Antonin Autaud, Fernando Arrabal, Grotovski, Rimbaud, Oswald de Andrade, Lautremont, Blake e todos os insurretos e visionários (católicos ou não). Descobri nesta rápida revisão de trechos do filme, inúmeros momentos que remetem a obra, sempre surpreendente, "bárbara e nossa", de Humberto Mauro, e ouso dizer que a minha fotografia branco e preto contribuiu muito para isso. Quem enxerga em ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA apenas metáfora e simbolismo, nunca ouviu falar em alomorfia. À respeito do rigor e da disciplina criativa de Trevisan falaram também uma de suas alunas de literatura e uma belíssima modelo-vivo negra. Para escrever um dos mais belos capítulos de seu premiado livro ANA DE VENEZA, Trevisan contratou os préstimos da modelo-vivo. Em seu depoimento ela narrou a estranheza e perplexidade de expor sua nudez a um homem que apenas queria observá-la acuradamente; como um legista que, munido de um gravador, fica resgistrando verbalmente os detalhes de sua intimidade física. Foi ela quem leu o referido trecho do livro em plenário e este talvez tenha sido o momento mais arrebatador da cerimônia. Emocionante também o depoimento do renomado auditor Toninho Trevisan, irmão caçula do escritor. Fico sabendo então da surpreendente e emocionada reação da falecida mãe de ambos após a exibição de ORGIA, na já histórica, apinhada e única pré-estréia do filme, no cine Bijou, em 1970. De qualquer forma, não deixa de ser surpreendente e confortador saber que aquele plenário cedeu espaço também a depoimentos contundentes de militantes GLBTS. Juro que poucas vezes senti de perto, e em São Paulo, uma atmosfera civilizada e de Primeiro Mundo, onde as palavras amor e amizade puderam ser proferidas por heteros e homossexuais sem o teor pejorativo da intolerância ou do proselitismo.

Filmagens de ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA, em 1969, em foto emblemática do "cinema marginal". Em primeiro plano, Rubens Eleutério, Carlos Reichenbach, João Silvério Trevisan, Percival Gomes de Oliveira, Jairo Ferreira e Tânia Savietto.
NÃO AVACALHA, CREMILDA!
Li hoje o quadro de cotações de cinema da Folha de São Paulo e fiquei espantado com a avaliação do filme de NELSON PEREIRA DOS SANTOS. Caraca, o que está havendo????? Os caras enlouqueceram? Dá a impressão que três deles, cuja opinião eu particularmente respeito, assistiram o filme numa mesma sessão com os rolos trocados. Por essas e outras eu tenho me negado a ver filmes em cabines privadas ou pré-estréias. Juro que eu não vi o mesmo filme que eles. Volto a repetir, em alto e bom tom, BRASÍLIA 18% é extraordinário!
E alguém pode me explicar a estrela solitária da cineasta Suzana Amaral para ÁRIDO MOVIE? Cáspite, as pessoas precisam olhar para o próprio umbigo antes de chamar o filme do colega de "aridíssimo"!
Daniel Caetano, ainda bem que o Guia da Folha, com as tais cotações, não chega nas bancas do Rio de Janeiro e no resto do país!
Chega! Fiquei irritado! Fui!
BRASÍLIA 18%
UMA AVALIAÇÃO PROEMINENTE
http://www.contracampo.com.br/79/critbrasilia18.htm
Escrito por Carlos Reichenbach às 16h04
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Surpresa!
BENDITOS FILMES BRASILEIROS
OK, o comércio cinematográfico está num péssimo momento: as salas estão vazias, ninguém tem quinze reais dando sopa, os filmes estrangeiros em exibição não ajudam, mas - pelo amor de Alá - há muitos anos não tínhamos à disposição, na mesma semana, tantos bons filmes brasileiros sendo lançados. Três deles, em exibição em São Paulo, justificam a produção do ano inteiro e nos restituem o orgulho da raiz. Três visões afiadas e diferentes de um país e um povo à beira de um enfarte do miocárdio. Três exuberantes contribuições para uma dramaturgia, finalmente, original e relevante.
BOLEIROS 2, de Ugo Giorgetti, dá seqüência à pessoalíssima visão do diretor à respeito dos "pobres povos amantes" nativos, afinando a sua fabulação em tom de crônica. Giorgetti recicla Monicelli, Bolognini e Gregoretti na várzea bandeirante. Não se trata de um filme sobre futebol, mas sobre o "em torno do esporte" e a síncope moral de uma horda de aposentados, ex-craques, ex-cartolas, "pernas-de-pau", carcamanos, ressentidos, picaretas, desocupados, boçais e "Marias chuteiras". Na tela, a São Paulo oculta da Vila Belmiro, da Móoca, da Penha, do Palestra Itália, da rua Oriente, da Freguesia do Ó, da Vila Maria... Giorgetti é o Alcântara Machado do cinema brasileiro. Cinema nacional, paulista e regional, com um leve acento da Península.
ÁRIDO MOVIE, de Lirio Ferreira, é um filme que se assiste com espanto e prazer. Atrevido, inventivo e estimulante. Duas seqüências, no mínimo, poderiam já ser consideradas antológicas: a visita do trio baratinado à plantação de maconha e o encontro dos mesmos com o protagonista de luto num salão de baile às moscas. Memorável também é a genial abertura com o lendário grupo Renato e seus Blue Caps se apresentando num muquifo de beira de estrada. Os superlativos poderiam se multiplicar às dúzias, às centenas, não fossem os seus dez minutos finais tão - com o perdão da palavra - brochantes. Sei lá porque cárgas d´água solucionou-se o desfecho com o malfadado (e já rotineiro) "final aberto". O protagonista toma um chá à beira da Chapada, fica "chapado", é sacrificado, e tudo termina em São Paulo, durante uma instalação picareta. Alguém precisa avisar ao síndico que o expediente de deixar "pontas soltas" não dá mais pé. Falta ao cinema atual (brasileiro, em especial) a ousadia de um Samuel Fuller, de um Robert Aldrich ou de um Nicholas Ray. Fuller teria feito o protagonista mandar bala nos irmãos de criação, dar uma banana para a videomaker chata e cair nos braços da índia prostituta, tudo ao som de "Menina Linda", com Renato e seus Blue Caps. Os intelectuais de gabinete não iriam gostar, claro, mas o filme manteria o teor insurreto e libertário de um novo "faroeste do terceiro mundo". Assisti ÁRIDO MOVIE, em sessão normal, ao lado do jovem pesquisador Matheus Trunk (do blog CINÉFILOS DO TERCEIRO MUNDO) e percebi claramente o seu entusiasmo arrefecido pelo "final moderno". De qualquer maneira, estou louco para rever o filme ainda esta semana, me deliciar (e aprender) com sua ousadia e frescor, e sair às pressas na seqüência da Chapada.
BRASÍLIA 18%, de Nelson Pereira dos Santos. O melhor filme do diretor desde MEMÓRIAS DO CÁRCERE e o melhor do ano até agora. Essencial, másculo e maiúsculo. Moderno, porque antigo e eterno. Os silêncios mais belos no mais sinfônico dos filmes recentes. É emocionante, quando não comovente, perceber o uso das lentes normais e de teleobjetivas com a elegância expontânea da melhor gramática fílmica. Nelson continua amando o Brasil como o um de seus maiores artistas e intérpretes. Ele enquadra o homem brasileiro na espectativa constante de conhecer sua alma. Antena permanente de seu tempo, Nelson nos ensina a "enxergar" com olhos atentos mas sempre disponíveis à poesia. Nelson nos ensina também que não se deve explicar tudo, mas que é preciso dar sentido a existência do filme, explicitar as razões dele existir; e isso, BRASÍLIA 18% faz de sobra. Filme de autor sim, mas também de grandes atores. Intensa a performance de Carlos Alberto Riccelli como o legista íntegro à soldo da insolência do poder e um Carlos Vereza assombroso na personificação irreprochável da carranca corrupta.
Confesso, sem medo de resvalar para a pieguice, que esses três filmes me devolveram o prazer de viver!
Escrito por Carlos Reichenbach às 19h59
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Para conhecer Afrânio Vital
MAIS UMA PÉROLA DO BLOG ESTRANHO ENCONTRO
Andréa Ormond vem fazendo um autêntico serviço de utilidade pública com sua prospecção sistemática (e crítica) dos filmes brasileiros. Mas o que torna seu endereço eletrônico absolutamente original e obrigatório são as preciosas entrevistas. O grande diferencial de seu trabalho de pesquisa e análise é que Andréa conhece profundamente os filmes que são citados nas entrevistas.
Lembro muito bem ter sido convocado às pressas pela Folha de São Paulo para entrevistar o cineasta húngaro Bela Tarr, que havia participado comigo do projeto holandês CITY LIFE, e que se negava a conversar com qualquer jornalista brasileiro que não tivesse visto as nove horas de sua obra prima SATANTANGO. O irrascível Bela Tarr tinha toda razão; como é possível avaliar (e informar à respeito de) uma obra complexa e inovadora que só é conhecida "de orelhada"?
Além de conhecer os filmes, André Ormond tem o raríssimo mérito de extrair o sumo da memória do entrevistado. Sem nenhum exagero, a página do blog dedicada à revisão da vida e obra do cineasta Afrânio Vital é uma aula de "jornalismo poético".
Leia abaixo alguns trechos "socializados" da entrevista: CINEFILIA "... Teve uma vez que fomos em Paracambi, última estação do trem na época, em busca de um filme do Jerry Lewis que não havíamos visto. Era “O Fofoqueiro”. Quando fomos voltar é que percebemos que aquela era a última sessão e não tinha mais nenhum trem! Lembro muito das sessões de expressionismo alemão, os filmes mudos... aquele silêncio na sala... o Golem se aproximando em meio a bruma expressionista... de repente... nosso estômago roncava de fome e provocava risos nas platéias das pequenas salas de exibição onde o mínimo ruído se escutava. E na noite em que fomos ver “O Fofoqueiro”, dormimos na estação, foi uma noite inesquecível. No meio do vento e da poeira passamos a noite discutindo e dissecando a imensa maravilhosa e surrealista ironia do perverso polimorfo Jerry Lewis para com os ícones americanos no filme, tais como Sinatra, os gângsters e as grandes lojas e magazines. De madrugada chegamos à conclusão de que a obra de Lewis era maior que a de Chaplin, pois era mais cruel, mais devastadora, mais surreal e dadaísta. Menos humanista, comercializante e piegas."
SOBRE CARLOS HUGO CHRISTENSEN "... a última vez que o vi foi emblemática. Eu estava em uma solidão abissal, era dia quente de carnaval e resolvi ir até a Cinelândia, encontrei o Artur Omar fotografando sozinho nas ruas, parei e conversei com ele. Na Rio Branco, altura da Almirante Barroso, olho, e também sozinho na rua, vejo dançando o Christensen. Estava com uma calça cor de chumbo vincada e bem passada, camisa de manga comprida arregaçada e suava muito, tinha um copo de plástico na mão. Fiquei estupefato e o segui por uns tempos, de repente veio um bloco imenso e ele sozinho foi dançando e mergulhando em meio à multidão numa alegria, até desaparecer. Acho que isso resume a figura humana que foi o Christensen."
TRABALHANDO COM WALTER HUGO KHOURI " Fui assistente de direção em “O Desejo”. Khouri era meticuloso e sabia de antemão o que queria, ao contrário do Christensen que seguia rigidamente o roteiro, escrito em inglês, “long shot”, “medium long shot”. Khouri não se prendia muito ao roteiro, principalmente nesta segunda fase de seu trabalho, mais moderna, tendo o Toninho Meliande como fotógrafo e não o Rudolf Icsey. Colocava uma música de fundo, me lembro que em “O Desejo” se ouvia muito “Yesterdays” com a Billie Holiday, e ele fazia a câmera, que depois assinava com o nome de Rupert Khouri."
TRABALHANDO COM MIGUEL BORGES "... Entre estes incluo o Miguel Borges, sempre irônico, divertido e inteligente. Nos filmes do Miguel ocorriam sempre coisas muito interessantes. Me lembro de uma cena de um filme em que atuavam uns anões, mas eles sempre eram convocados e nunca filmavam. Acredito que por problemas de luz exterior ou coisa parecida. Um dia em pleno set, o Miguel estava dirigindo e o diretor de produção gritou de longe: “Miguel, qual é a previsão para os anões?” O Miguel ainda atônito parou, pensou um pouco e respondeu enfaticamente: “não vão crescer nunca!”
SOBRE O ÓTIMO "A LONGA NOITE DO PRAZER" (do próprio Afrânio Vital) "Era uma história de receptação de jóias roubadas e descortinava toda a paisagem da orla do Rio, um filme um pouco debochado e moderno, com um niilismo bem forte. Dediquei ao Duilio Mastroaini, diretor que conheci, que muito me impressionou e se tornou um grande amigo meu. O conheci em um escritório na rua Senador Dantas, Cinelândia, uma espécie de Boca do Lixo carioca."
DEPOIMENTOS ESPARSOS "Talvez eu seja o negro que mais dirigiu filmes neste país. Consegui dirigir três longas-metragens e quinze curtas porque eu não sabia que era negro, na minha ingenuidade me julgava igual a todos, levava porradas, levantava e retomava o trabalho pacientemente. Pensava assim: “o erro é meu, você tem que aprender mais, ler, trabalhar.” "As pessoas têm medo de suas bundas, de seu sovacos, de seu excrementos e até de suas lágrimas. E julgam que o colonizador não fede. Todo mundo tem medo das diferenças e todos sonham em ganhar um Oscar e ficar semelhante ao neo-colonizador, este ideal é o que é perseguido no momento. Fazer os filmes para ganhar o Oscar, vamos ver quem vai ser o primeiro a ser comprado, é o ideal dos cinemas do mundo todo. Filmes de planos rápidos e comerciais para evitar a reflexão, ou pastiches mal estudados de filmes antigos refeitos com glamour superficial. A coisa é muito simples e ninguém vê. É Marx, pois “farinha pouca, meu pirão primeiro”, e é Freud, “tem que se descarregar o ódio em cima de alguém”. Esta é a época em que vivemos e isto ainda vai levar muitas décadas até ser modificado."
http://estranhoencontro.blogspot.com/2006/03/biografia-entrevista-afrnio-vital.html
Escrito por Carlos Reichenbach às 12h14
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