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Em Processo
FALSA LOURA - TERCEIRO CORTE

Como afirmou Thelma Schoonmaker (Oscar 2007 de melhor montagem, por "Os Infiltrados") a edição digital trouxe várias vantagens práticas mas também algumas cruéis perversões no processo de finalização de um filme. Ao criar condições de serem feitas rapidamente inúmeras versões do mesmo corte, o recurso viabilizou a interferência ilimitada dos executivos dos grandes estúdios. A montagem analógica tinha a vantagem de obrigar os estranhos à direção e montagem a assistirem o filme na moviola, sempre acompanhados de alguém que os informasse dos sons ainda não editados, dos futuros efeitos especiais ou recursos da linguagem fílmica que só poderiam ser executados na etapa final do processo (como trucagens, por exemplo). Neste contato humano, todas as dúvidas geradas pelas ausências técnicas, que só a finalização absoluta possibilita, eram esclarecidas. Hoje, num primeiro corte, é comum os produtores carregarem um DVD, sem nenhuma nuance pós-edição, para suas casas ou escritórios e ficarem mostrando o filme para colegas, namoradas, parentes, vizinhos e até o padeiro da esquina. Nesta etapa qualquer opinião ingênua, irresponsável, equivocada ou mal intencionada pode destruir um trabalho de muitos anos. Já senti na pele o que afirma a montadora de Martin Scorsese. Quando GAROTAS DO ABC estava com o corte, que eu e a montadora considerávamos definitivo, o filme foi mostrado a alguns possíveis distribuidores nacionais e estrangeiros. A opinião unânime era de que nenhum exibidor iria se interessar por um filme de 150 minutos. Como bem afirma a montadora Cristina Amaral, até hoje, o que mais prejudicou GAROTAS DO ABC foi o excesso de interferência externa. Parece inacreditável, mas cheguei a ouvir - após a mixagem da versão de 105 minutos - da boca de um destes mesmos experts em comercialização, que na primeira e apressada avaliação reclamou do tempo, que nós deveríamos ter batido o pé e mantido o tempo original; que, com 150 minutos, o filme era genial. E a mãe do cidadão, como é que fica? Lembro também do que narrou Truffaut, em seus diários de "FAHRENHEIT 451 ", publicados no Cahiers du Cinema. Truffaut afirmava que a única pessoa a quem ele fazia questão de mostrar seu primeiro corte, ainda na moviola, era para Jean Aurel, um conhecido velho artesão do cinema francês. Se Aurel saísse com dúvidas a respeito do que Truffaut queria dizer com essa ou aquela cena, o diretor de "Noite Americana" voltava para a moviola e mexia no filme. O expediente não apontava nenhum sopro de humildade por parte de Truffaut, mas a sua extrema perspicácia; para Truffaut, Aurel sabia (mais do que ele) enxergar as arestas e os vazios da narrativa. Aurel conhecia, como poucos, o gosto, as espectativas e os limites de percepção do público A, B e C francês. Confesso que não encontrei um Aurel brasileiro que me inspírasse tamanha confiança. Talvez, se eu tivesse mais intimidade com o falecido Carlos Coimbra, e o elegesse meu conselheiro casual. Além de excelente montador, Coimbra detectava o gosto médio como poucos. Assim que dou a montagem como definitiva mostro somente para duas ou tres pessoas mais próximas e cuja opinião confio plenamente. Confesso que busco sempre amigos que compartilhem comigo de um mesmo repertório; é, inclusive, o que eu busco nos meus primeiros assistentes de direção. O que adiantaria trabalhar, ou confiar meu material bruto ou ainda em processo, a alguém que não conheça e ame Fritz Lang, Imamura, Zurlini, Robert Rossen e/ou Luis Sérgio Person? Talvez, por esta razão, eu tenha feito uma imprudência ao mostrar o segundo corte de FALSA LOURA para a minha filha Eleonora, de 28 anos, cuja profissão e formação cultural é outra e,sobretudo, que atualmente está vivenciando algo especial em sua sua vida; a primeira gravidez. O que poderia esperar dela, diante de um filme cujo desfecho é um soco no estômago. Naquele momento e na minha cabeça, vingou a idéia de que entre pais e filhos não existem virulas. Algumas coisas que ouvi dela me tiraram do sério, num primeiro momento. Sempre saio destas experiências com a impressão de que a humanidade ficou mais burra; de que o cinema está cada vez mais subserviente ao mau naturalismo da televisão. Mas passado os primeiros instantes de perplexidade, pincei três dúvidas dela, que a narrativa não esclarecia, e que me deixaram sem dormir aquela noite. No dia seguinte liguei para a montadora Cristina Amaral e conversamos longamente sobre aquelas observações. FALSA LOURA, desde a gênese do roteiro, foi concebido como um filme cheio de elipses, nuances psicológicas apenas sugeridas e com uma predominância gradativa da música até o momento em que ela passa a substituir literalmente os diálogos. É evidente que as complexas condições econômicas e práticas da realização chegaram a afetar o processo narrativo. No entanto, nunca me passou pela cabeça que o desfecho deste filme pudesse parecer (a quem quer que seja) realista. Na minha cabeça, todos os minutos finais de FALSA LOURA deveriam sugerir um pesadelo à luz do dia, um autêntico delírio da protagonista. Ao mesmo tempo, não quis usar recursos óbvios de trucagem que empobrecessem a narrativa (do tipo transformar digitalmente as cenas capitais da última seqüência em "ondas"). O máximo que fiz foi ralentar as cenas para 120 quadros por segundo. Parece que o recurso não funcionou e daí a necessidade de explicar o óbvio. Conclusão: nem eu, nem a montadora, estamos interessados no óbvio. Se as poucas pessoas - que são espectadores normais e não cinéfilas - não entenderam que aquilo era imaginação da protagonista, é porque alguma coisa estava errada; portanto, é preciso mudar o desfecho, sem deixar que ele perca o impacto que justifique a sua existência como filme. Em resumo, é isso que eu e Cristina Amaral estaremos fazendo amanhã, na ilha de edição. Quem viver, verá!
Escrito por Carlos Reichenbach às 01h57
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Jogo Rápido
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NA MINHA ROLLEIFLEX (de Alexandre Carvalho dos Santos) http://www.interney.net/blogs/rolleiflex
COMENTÁRIO RÁPIDO SOBRE A FESTA DE HOLLYWOOD
Não fossem as premiações a OS INFILTRADOS, o show das atrizes de "Dreamgirls", a "pontuação" esporádica e genial do grupo de ballet, o discurso em italiano (com tradução simultânea de Clint Eastwood) do genial Ennio Morricone, a descontração da ganhadora do prêmio de melhor canção dedicando o seu Oscar a sua esposa, a classe das senhoras William Friedkin (Sherry Lansing) e Taylor Hackford (Helen Mirren) e as informações sempre bem vindas do Rubens Ewald, as três horas e meia de transmissão da entrega do Oscar seriam do mais profundo tédio. Destaque negativo para aquele clipe horroroso que abriu a premiação. Se isso foi uma tentativa de "modernizar" a festa anual, que seja ressuscitada urgentemente a austeridade do evento antes da "ditadura" da televisão. Ver o magistral Peter O´Toole perder seu enésimo Oscar foi deprimente. E alguém consegue explicar o surto de Forest Whitaker na hora de agradecer o prêmio, que não merecia ? O ator parecia estar sob o efeito de Gardenal e fez o discurso mais enigmático da noite. Por outro lado o entusiasmo da novata e "robusta" Jennifer Hudson foi comovente; de longe, a figura mais sensual da festa; excetuando-se, claro, sua companheira de elenco, Beyoncé Knowles, a verdadeira vestal da noite.
Escrito por Carlos Reichenbach às 21h16
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