Devora-me 03

NOSSOS POETAS MAIORES 03
- Outros Simbolistas Essenciais -
 
METAMORFOSES
A Mme. Georgine Mongruel.

Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!

EMILIANO PERNETA (Curitiba PR 1866 - idem 1921)
Publicado no livro Ilusão (1911).

ESSE PERFUME
Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

EMILIANO PERNETA (Curitiba PR 1866 - idem 1921)
Publicado no livro Ilusão (1911).
 
EVOÉ - 1910
Primavera! — versos, vinhos...
Nós, primaveras em flor.
E ai! corações, cavaquinhos
Com quatro cordas de Amor!

Requebrem árvores — ufa! —
Como as mulheres, ligeiro!
Como um pandeiro que rufa
O Sol, no monte, é um pandeiro!

E o campo de ouro transborda...
Ó Primavera, um vintém!
Onde é que se compra a corda
Da desventura, também?

Agora, um rio, água esparsa...
Nas águas claras de um rio,
Lavem-se penas à garça
Do riso, branco e sadio!

E o dedo estale, na prima...
Que primaveras, e em flor!
Ai! corações, uma rima
Por quatro versos de Amor!

PEDRO KILKERRY (Salvador BA, 1885 - idem 1917)
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970.

FLORESTA MORTA, 1909
Por que, à luz de um sol de primavera
Uma floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriam, vai a fera
— Vidrado o olhar — lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma coisa lembro;

Sob outro céu assim, que pouco importa,
Abrigo à fera, mas, da ave fugida,
Há no peito uma floresta morta.

PEDRO KILKERRY (Salvador BA, 1885 - idem 1917)
In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970.
 
DECADÊNCIA
Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...

Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...

Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

RAUL DE LEONI RAMOS - (Petrópolis RJ, 1895 - Itaipava RJ, 1926).
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.

CRISTIANISMO
Sonho um cristianismo singular
Cheio de amor divino e de prazer humano;
O Horto de Mágoas sob um céu virgiliano,
A beatitude com mais luz e com mais ar...

Um pequeno mosteiro em meio de um pomar,
Entre loureiros-rosa e vinhas de todo o ano.
Num misticismo lírico, a sonhar
Na orla florida e azul de um lago italiano...

Um cristianismo sem renúncia e sem martírios,
Sem a pureza melancólica dos lírios.
Temperado na graça natural...

Cristianismo de bom humor, que não existe,
Onde a Tristeza fosse um pecado venial,
Onde a Virtude não precisasse ser triste...

RAUL DE LEONI RAMOS - (Petrópolis RJ, 1895 - Itaipava RJ, 1926).
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.



Escrito por Carlos Reichenbach às 14h57
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   Performances Notáveis

AS PERFORMANCES ANTOLÓGICAS
DO CINEMA BRASILEIRO

 A polêmica listagem das 60 PERFORMANCES ANTOLÓGICAS DO CINEMA BRASILEIRO, postada neste blog no ano passado, acabou gerando algumas curiosas controvérsias quando colocada em discussão em comunidades e listas de cinema. A relação chegou até a ser notícia em outros endereços eletrônicos, incluindo o blog do jornalista e crítico Ricardo Calil (http://olhaso.nominimo.com.br/).
 Abastecido de várias sugestões resolvi incluir a relação no INVENTÁRIO OLHOS LIVRES, e deixar a lista em aberto conforme surjam novas performances notáveis em filmes mais recentes.

http://www.olhoslivres.com/performances1

1.
 Atendendo ao desafio de amigos e fiéis do blog, eu me lancei na  mais difícil e dolorosa das avaliações. Para isso, me obriguei a restringir as escolhas de performances excepcionais a um número pré-determinado. Desta feita não confiei piamente na minha "memória instantânea" e fui  consultar também dicionários específicos e os sites ADORO CINEMA BRASILEIRO e MULHERES DO CINEMA BRASILEIRO. (texto da primeira postagem)
2.
 Para que a lista não ficasse extensa demais optei por destacar apenas um filme por ator. Assim não fosse, teria - por exemplo - que citar todos os filmes em que o extraordinário Luis Linhares atuou: A DERROTA, OS INCONFIDENTES, ANCHIETA JOSÉ DO BRASIL, etc. Preferi destacá-lo pela antológica performance como Delegado Cabeção, em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, por considerá-la tão essencial quanto o filme e à performance (também antológica) de Paulo Villaça.

3.
 Só para reforçar os conceitos que nortearam a escolha pessoal, é preciso deixar claro que não foi levada em consideração as interpretações consideradas virtuososas "em excesso". Pessoalmente, sempre fico com o pé atrás, com atores que se sobressaem ao conjunto do elenco por um esforço exagerado de parecer formidável. O Oscar americano prima por esta perversão. Quer ver um ator ganhar um Oscar? Basta protagonizar qualquer biografia notória. Cáspite, esse é o caminho mais fácil para qualquer bom profissional, já que o ator parte de um parâmetro existente. Interpretações muito mais complexas são aquelas que nascem da imaginação de quem escreve (o roteirista) e de quem constrói o personagem fictício (o ator). A isso chamamos "invenção". Qualquer neófito deveria perceber isso com clareza. Me impressiona ver Fox "incorporando" Ray Charles, no filme homônimo, mas me impressiona muito mais (por exemplo) lembrar de Peter O´Toole como o general Tanz, em A NOITE DOS GENERAIS - uma interpretação arriscada, cheia de tiques nervosos, teatral, carregada, anti-naturalista por excelência, mas exuberante e de dar medo e pesadelos ao mais corajoso dos espectadores.
 Interpretações geniais são aquelas que tornam o ator ser intregrante do filme. Você lembra de O BANDIDO DA LUZ BERMELHA, lembra imediatamente de Paulo Villaça; nem sei dizer se é uma grande atuação porque está muito além de conceitos técnicos (tecnicamente é um arrazoado de clichês reciclados com ironia e "donaire"); ele é o Bandido, e ponto. Na época do lançamento de VIDAS SECAS, vi críticos apontando Atila Iório como uma escolha errada. Que estupidez! A primeira vez que eu li (antes de ver o filme, claro) VIDAS SECAS, eu enxerguei o pai daquele jeito. Iório trouxe ao filme a sua formação de ator de circo mambembe, sua catadura cabocla, chucra... Hoje, Átila Iório é a "cara do filme".
(considerações inclusas em tópico específico da comunidade CINEMA BRASILEIRO do Orkut)



Escrito por Carlos Reichenbach às 14h08
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   Devora-me 02

NOSSOS MAIORES POETAS - 2
- colaboração do leitor ÍTALO, de Teresina

ANTÔNIO FRANCISCO DA COSTA E SILVA
(Amarante PI 1885 - Rio de Janeiro RJ 1950)

A MOENDA
Na remansosa paz da rústica fazenda,
À luz quente do sol e à fria luz do luar,
Vive, como a expiar uma culpa tremenda,
O engenho de madeira a gemer e a chorar
Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
E ringindo e rangendo, a cana a triturar
Parece que tem a alma, adivinha e desvenda
A ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...
Movida pelos bois tardos e sonolentos
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.
Ai! dos teus tristes ais! ai! moenda arrependida!
— Álcool! para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

(in Zodíaco, Oficina de Tipografia Apolo, 1917, RJ Enviado por: Sérgio Gerônimo Delgado)

SAUDADE
Saudade! Olhar de minha mãe rezando
e o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra...
O Rio cantigas de águas claras soluçando.
Noites de Junho. O caburé com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
e à noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.
Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai! mortalhas de neve sobre a serra./
Saudade! O Parnaíba* – velho monge
as barbas brancas alongando...
E ao longe o mugido dos bois da minha terra...

Ítalo
*Parnaíba - rio que corta o Piuaí inteiro, de ponta a ponta, também chamado de Velho Monge, talvez por ter águas lentas e marrons feito as roupas dos monges franciscanos.

REFRÃO DO TREM NOTURNO
Corre o trem dentro do túnel estrelado da noite
tonto de velocidade
ávido de espaço
a arrastar uma rua ruidosa de carros
e lá vai
acelerando mais e mais as rodas rápidas
da máquina que marcha
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Andam, resfolegam, sopram, bufam
os cavalos-vapor a galopar invisíveis
nitrindo aflitos
silva a locomotiva
a pupila alucinada reverberando na treva
— compasso de relâmpago
tomando a distância
perdida na noite
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Em disparada o comboio foge trepidando
ao vaivém dos vagões entrechocados na carreira
como elefantes perseguidos no deserto

É um pesadelo sob o silêncio o trem que passa
o trem que desfila como um sonho rumoroso
o trem que leva oscilando na perspectiva fugidia
árvores
campos
montes
repentinamente em movimento
o trem que se lança no espaço como a vida no tempo
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Publicado no livro Poesias completas (1950). Poema integrante da série Alhambra.

Mais informações na internet, tais como mais poesias, os livros, etc:
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/index.cfm?fuseaction=Detalhe&CD_Verbete=448



Escrito por Carlos Reichenbach às 11h11
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   Assunto Sério

MENINA DESAPARECIDA

 A menina Maria Cecília está desaparecida desde o dia 26 de fevereiro; os pais estão desesperados. Se alguém tiver alguma informação sobre o seu paradeiro, favor avisar no telefone (21) 7826-9408.

 Pede-se a quem puder, o favor de divulgar a foto e o telefone em seu endereço eletrônico.



Escrito por Carlos Reichenbach às 02h15
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   Toques Rápidos

 4 lps de PEREZ PRADO

no FOCINHO DE PAVLOV

http://focinhocerebral.blogspot.com/


DEBATE E CURSO

FILME DE GUY DEBORD + DEBATE
A Sociedade do Espetáculo e Situacionismos no Teatro Fábrica
Curadoria: Profa Dra Cibele Rizek e Márcia de Barros
ENTRADA FRANCA
Sexta 23/03/07 - 20hs - exibição do filme de Guy Debord:  A Crítica da Separação, 1961,  duração 20’ – Debate com a  Prof Dra Cibele Rizek e o Prof  Fabio Lopes

OFICINA TEATRAL DE INTERPRETAÇÃO
com Sérgio Ferrara
Local: Teatro Fabrica
início: 5 de março de 2007
término: 25 de junho de 2007
vagas: 30
horário: segundas, das 19:30 às 22:30
público alvo: atores e estudantes de teatro
Idade mínima: 20 anos
mensalidade: R$ 200,00
inscrição: segunda a sexta das 14h às 19h
com Luciana / Tel. 3255-5922

Teatro Fábrica São Paulo
Rua da Consolação,1.623 - tel. 3255 5922
www.fabricasaopaulo.com.br


TIRINHAS CINEMA(S)

SÉRGIO DE BONI informa:
"Olá, estou mandando um link para o meu blog, eu criei uma espécie de tirinha semanal non-sense que chamei de Cinema(s) em homenagem ao Godard."
http://www.eraextrema.blogspot.com/


A MAIOR LOUCURA DE MIIKI TAKESHI



Vi ontem, finalmente, GOZU de Miiki Takeshi, em belíssima cópia legendada em português presenteada por Leopoldo Tauffenbach.
Cáspite! O que é aquilo!?!
O japa é mais louco do que eu pensava.
O clímax deste filme é o delírio mais transgressivo que eu já vi filmado.
Imagine-se um yakuza violentíssimo transformado, sem mais nem menos, numa linda garota e que resolve transar a qualquer preço com seu melhor amigo, que - por sinal - imagina tê-lo (a) matado. O amigo, que é virgem e bem dotado, transa com a garota (o amigo yakuza) e de repente os dois ficam presos um ao outro, como cachorros. Quando o amigo consegue livrar seu membro (leia-se, pinto) do sexo da moça, ele descobre que é a mão do amigo que apertava sua genitália. Do meio das pernas e da genitália da linda e frágil garota não sai apenas uma mão e um braço, mas o yakuza inteiro!!!!!!!
Chega! Vou programar essa sandice numa das próximas Sessões do Comodoro e convidar certos atores e atrizes que ainda acham que eu pego pesado!



Escrito por Carlos Reichenbach às 04h20
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   Brasileiros que eu admiro. 01

HOMENAGEM À FAMÍLIA OITICICA

SONIA OITICICA
 Morreu recentemente uma lenda do teatro brasileiro.
 Sônia Oiticica, atriz de vanguarda de Nelson Rodrigues morreu em SP, vítima de negligência hospitalar. Uma das filhas do Professor José Oiticica, e irmã do grande experimentador Hélio, Sônia demonstrou talento para as artes cênicas. Teatro, TV, cinema, todos contaram com sua presença marcante.
 Parte com Sônia mais uma fonte da história viva dos Leite e Oiticica. Fez 88 anos dia 19 de dezembro de 2006.

JOSÉ OITICICA
 José Rodrigues Leite e Oiticica nasceu em Oliveira (MG), em 1882.
 Filólogo e professor, foi destacado militante anarquista nas primeiras décadas desse século.
 Iniciou sua militância em 1912. Desde então passou a colaborar sistematicamente na imprensa operária e anarquista. Em 1914 passou a lecionar na Escola Dramática do Rio de Janeiro. Em 1917, foi nomeado professor de português do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Em novembro do ano seguinte, foi preso quando participava de articulações com vistas à deflagração de uma insurreição operária no Rio de Janeiro. Participante ativo do movimento anarquista, publicou Princípios e fins do programa comunista-anarquista (1919) e A doutrina anarquista ao alcance de todos.
 Entre 1929 e 1930, lecionou filologia portuguesa na Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Lecionou também na Universidade do Distrito Federal, em meados da década de 30.
Morreu no Rio de Janeiro, em 1957.
Fonte: Enciclopédia Delta-Larousse

O PENSAMENTO VIVO DE JOSÉ OITICICA
"O espírito anárquico é essencialmente avesso a quaisquer fanatismos. Sendo ânsia de liberdade, não pode querer dogmas, nem disciplinas, nem mandamentos humanos ou divinos e, muito menos, inquisições, santos-ofícios, índices e autos-de-fé. Pregando o trabalho livre, o pensamento livre, o amor livre, a ação livre, não aceita nenhuma limitação às faculdades intelectuais ou emotivas, nem reconhece bitolas, cremalheiras, pauta, à exteriorização de idéias ou sentimentos. Só o indivíduo tem o direito de dirigir seu raciocínio, regular sua linguagem, enfrentar seu estilo, moderar seu juízo, orientar sua ação." - José Oiticica

Quem vai a uma barricada precisa levar, além de uma espingarda na mão, uma idéia no cérebro.
 “Por isso que a simplicidade sempre foi o atributo, não somente da verdade, como do próprio gênio.
  “Os modernos devem se espelhar nos antigos, na tradição greco-latina.
 
Essa invisível causa, que eu procuro
nos meus tormentos de meditação,
inda é o mesmo problema ingrato e obscuro
Que atormenta homens bons desde Platão
-
Esse maldito sonho de ser puro
- Apurado na dor - é sonho vão:
E ira semeando dores no futuro...
Pobres sonhadores que virão!

(Oiticica: 1914: RJ:Revista Americana)

HISTÓRIAS DO PROFESSOR OITICICA
NARRADOS POR SUA SOBRINHA TINA
 "Embora anarquista teórico, era o escritor do panfleto mais bem escrito do Brasil, José Oiticica era um poeta parnasiano!
 E mais. Extremamente rígido na sala de aula, corrigia a pronúncia de seus alunos chamados "Pedro" para que articulassem o [r]. Não vacilou em reprovar sobrinhas mas era bastante liberal com suas filhas, que, segundo minha mãe, fumavam, que horror.
 Tio Cajuza obrigava a todos a fazer as árvores gramaticais que o Chomsky tornou famosas. Conheci ano passado um senhor que detestava o Professor Oiticica.
 Outra estória que rola é dele nunca chegar atrasado e só faltar às aulas do Pedro II quando a polícia do Vargas o ia recolher sob queixa dele ser "comunista" e ele indignado respondia:
--Não sou comunista, sou anarquista, anarquista teórico!
 Minha mãe diz que tio Cajuza escrevia até no bonde, com um micro-lápis entre seus dedos nas seis ou sete línguas que dominava.
 Sim, lembrei-me de ouvir minha mãe, sobrinha do tio Cajuza, falar sobre ele ser Rosacruz."


 "O velho Oiticica era parnasiano mesmo. Isso não é novidade. Aliás, a grande maioria dos intelectuais anarquistas que publicaram prosa e verso, entre o final do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, no Brasil, seguiram a estética parnasiana, como deixa claro Francisco Foot Hardman no terceiro capítulo de seu livro "Nem Pátria, Nem Patrão". Há, no entanto, uma diferença gritante entre o parnasianismo tradicional e o estilo parnasiano utilizado pelos escritores anarquistas do citado período: o conteúdo. Em moldes parnasianos, os anarquistas teciam seus protestos, suas críticas e denúncias. Eis o que distanciava o "parnasianismo" de Oiticica e de outros anarquistas, do parnasianismo dos aristocratas.
 Para homens como Oiticica, Fabio da Luz e Gigi Damiani, o anarquismo era a máxima expressão da ordem. Conseqüentemente, a máxima expressão da higiene, da limpeza, da beleza e do estilo. O próprio Oiticica publicou, nas páginas de Ação Direta, um Curso de Estilo. Visavam, com isso, educar todos os trabalhadores e elevar-lhes a mente, combatendo a exploração estatal com a cultura. Nos sindicatos anarquistas eram realizadas conferências sobre vegetarianismo, higiene, história, etc. e, com esse trabalho Oiticica cooperou grandiosamente.
 Oiticica foi preso e mandado para campos de concentração três vezes (Ilha do Bom Jesus e Ilha Rasa, se não me engano), por causa do ideal libertário. Em uma dessas prisões escreveu A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos. Esteve envolvido na Insurreição Anarquista de 1918; realizou em sua residência um congresso anarquista, além de ter sido solidário com militantes brasileiros e estrangeiros. É por esse e outros motivos que o considero um militante anarquista. Conservou essa postura até o fim de sua vida, por mais que fosse um escritor "parnasiano" e um amante da língua portuguesa. Jaime Cubero lembrava que Oiticica era um dos militantes mais comprometidos com a causa, procurando ser pontual e coerente. Quando de sua morte, muitos de seus alunos prestaram homenagem
."
BARBA SANTA (historiador e anarquista)

 "Enfim, evocar a memória de José de Oiticica através dos círculos parnasianos e do movimento operário é apenas um primeiro passo frente à grandeza de sua obra. Há muitas trilhas a percorrer nas diversas facetas do intelectual, teatrólogo, filólogo, gramático, poeta, crítico literário, grão mestre da Fraternidade Rosa Cruz, militante e batalhador incansável das virtudes da filosofia libertária no Brasil até o fim de sua vida, em 1957."
 TEREZA VENTURA (em "José Oiticica: Parnasianismo e Doutrina Libertária)



Escrito por Carlos Reichenbach às 01h41
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