O Efeito TROPA DE ELITE 02
- CONTINUAÇÃO -
COPPOLA: O FASCÍNIO PELO PODER E PELO NAPALM — Claro que a apologia da tortura e da truculência não me parece o ponto de vista de Padilha, mas a subserviência à bilheteria tornou o filme ambíguo, abrindo a guarda para as pedras. Não consigo enxergá-lo como fascista nem reacionário, porque não me senti manipulado por ele.
Fascistas são filmes como "Violência Gratuita", do austríaco Michael Hanneke, e "Clube da Luta", porque transformam o espectador em cúmplice e fazem o elogio declarado da violência. De direita (e não fascistas) são algumas obras essenciais do cinema contemporâneo, como "Apocalypse Now", de Coppola, “Taxi Driver” de Scorsese e “Hardcore”, de Paul Schrader. Em “Apocalypse Now”, o personagem mais fascinante é o Coronel Kurtz, um homem enlouquecido, que mandou os parâmetros éticos às favas. E como são retratadas as figuras dos nativos naquele domínio? É tão nítido aquilo... E, ao mesmo tempo, há um fascínio muito grande pelo caos, pelo napalm, pelas cores espetaculares da guerra suja. Para mim é um filme de direita, mas não reacionário nem fascista. É de direita como o melhor da criação artística norte americana.
CINEMA E MACARTISMO: UMA QUESTÃO DE ESCOLHA — Mais incômodo ainda é quando se trata de elogiar os cineastas talentosos que continuaram trabalhando no período do Macartismo. Eliah Kazan, por exemplo.
A complacência com a violência, a justificação da tortura e a relativização da delação são os três temas mais delicados do cinema moderno. Em algum momento a delação se justifica? Para mim, nunca. Como sair impune ao final do magnífico filme de Brian de Palma "Pecados da Guerra", talvez o melhor filme já feito sobre o assunto.
O que não nos impede de observar que o abismo macartista tenha estimulado a descoberta de obras interessantíssimas de algumas de suas vítimas. O exílio de Joseph Losey, por exemplo, fez aflorar uma obra única e deslumbrante.
Cy Endfield, ao contrário dos que evocaram o direito de se calar sob a guarda da primeira emenda da constituição americana, afirmou em alto e bom tom que era comunista mesmo e que o senador era um demagogo corrupto e nefasto. Foi banido do país e construiu uma obra ímpar filmando na África, com o dinheiro dos ingleses, e expondo com clareza sua postura anti-imperialista.
OS BRANCOS PREDADORES E OS BABUÍNOS JUSTICEIROS —
Cy Endfield foi um dos melhores e menos conhecidos diretores de cinema banidos pelo macartismo. "Zúlú" é um libelo contra a dominação e “Perdidos no Kalahari”, termina com o protagonista, um predador branco, trucidado por macacos babuínos. É genial. Um filme árido, de idéias políticas claras, sem discursos fáceis e jamais proselitista. Grande cinema
O WESTERN E O ELOGIO DO ÍNDIO — Don Siegel é um diretor extraordinário. Mas foi ele quem criou aquele personagem de extrema direita, o inspetor Callahan, de “Dirty Harry”, vivido por Clint Eastwood, que pegava os bandidos e dizia “você é a doença e eu sou a cura. Há uma diferença”. Durante quanto tempo o cinema americano fez tripudiou em cima dos índios, fazendo a elegia do General Custer, que era um homem extremamente cruel e truculento, até que Delmer Davis, pela primeira vez, enxergasse a possibilidade do entendimento entre brancos e índios.
O CINEMA E A EXPLORAÇÃO COMERCIAL DA INFÂNCIA — Sinto-me atraído por visões diferentes do mundo e mesmo por posturas políticas diferentes das minhas. Porque sou fascinado pelos pensadores libertários não espero ver unicamente filmes que compartilhem do mesmo interesse. No entanto, há coisas que me incomodam no cinema atual. O cinismo imobilista, por exemplo. Mas o que mais me choca, e isso é um problema pessoal, é a glamurização da violência infantil. Vi muito pouca gente se rebelar com o uso indiscriminado da imagem de uma criança com arma na mão.
Essa imagem, queira-se ou não, em algum momento vão estar disponível na televisão, no computador, fetichizando a violência. Isso unido à preocupação comercial torna-se uma bomba de disseminação do ódio, dissociada de qualquer propósito crítico.
ROSSELINI E O PECADO DE SER CATÓLICO — Eu gosto muito de Rosselini e tenho um amigo cineasta que diz ele é muito bom, mas o problema é que é católico. Eu digo sempre ao meu amigo: pô, mas ele é bom por que é católico! Paul Schrader é um autor único porque é calvinista. Meus dois poetas de cabeceira, Murilo Mendes e Jorge de Lima são católicos; eu não sou.
No fundo, no fundo, o espectador com um pouco mais de informação está sempre exigindo o facilitário da conivência ou, no máximo, de posturas nítidas com as quais discorda.
EM DEFESA DA AVENTURA DA CRIAÇÃO
Eu insisto, a riqueza da obra de arte reside nas suas contradições, nos altos e baixos, no mergulho no escuro. O resto é bijuteria.
CARLOS REICHENBACH
- especial para jornal O GLOBO -
Escrito por Carlos Reichenbach às 18h09
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