| |
FALSA LOURA - ALGUMAS PALAVRAS
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE "FALSA LOURA", QUE SERÁ MOSTRADO PUBLICAMENTE, PELA PRIMEIRA VEZ, NO FESTIVAL DE BRASÍLIA, SÁBADO, DIA 24 DE NOVEMBRO.
(e sugeridas por entrevista a Ana Carolina Horta, da revista virtual BOCA A BOCA)
www.bocaboca.com.br

Bruno de André e Rosanne Mulholland.
FALSA LOURA é o quarto ou quinto filme que faço tendo como protagonistas mulheres proletárias ou da baixa classe média. Originalmente foi um dos quatro roteiros que escrevi, estimulado pela Bolsa Vitae, que buscavam retratar o meu imaginário a respeito da mulher operária. Durante dois anos, eu mergulhei no ambiente das tecelãs do ABC paulista. Todos os quatro roteiros partiam de uma premissa anarco-libertária de que o verdadeiro espaço de liberdade do proletariado é o tempo livre; de que o trabalho só tem sentido quando enxergado como prazer. A idéia inicial era filmar os quatro roteiros de uma só vez. Como só consegui filmar o primeiro deles "Aurélia Schwarzenega" (posteriormente batizado de GAROTAS DO ABC), resolvi fazer algumas mudanças substanciais no que seria o segundo filme da série ABC-CLUBE DEMOCRÁTICO. Mudei o nome das personagens, aboli a região do ABC e resolvi trabalhar com um elenco completamente novo para mim. O ambiente proletário e operário continuou o mesmo, embora em outra geografia. Mantive também a essência da narrativa dramática e a perspectiva política do projeto original. A escolha do elenco foi instintiva, já que aqueles rostos que eu enxergava na escritura do roteiro já possuíam personalidade própria. Rosanne Mulholland nem estava loura quando a vi pela primeira vez em A CONCEPÇÃO; mas havia uma tamanha determinação e atrevimento em seu olhar, que pedi para a Vivian Golombek, produtora de elenco, marcar uma entrevista com ela, em São Paulo. No caso, eu precisava de uma atriz que conseguisse imediatamente transmitir uma falsa impressão de excessiva auto-estima; uma certa arrogância em sua beleza trivial e agressiva. Silmara, a protagonista, foi construída como uma personagem que deveria revelar sua integridade e delicadeza aos poucos. Sua insuspeitada fragilidade só poderia ser explicitada nos minutos finais do filme. Desde a sua gênese, o roteiro previa um desfecho desconcertante; uma lição de vida absorvida na porrada, um obstáculo que impõe a superação de cabeça ereta. Nesse sentido, a construção final da montagem obedeceu – e muito – o rendimento proporcionado pela entrega absoluta da atriz ao seu personagem. Eu e montadora Cristina Amaral cortamos seqüências inteiras estimulados por sua vigorosa atuação. O Cauã Reymnond foi outra aposta pessoal que me surpreendeu a cada dia de filmagem. Inicialmente, pensei em fazê-lo dublar um profissional nas seqüências cantadas; mas ele insistiu em passar por teste, mesmo sem ter enfrentado microfone uma vez na vida. Quando conversei com o Nelson Ayres, diretor musical do filme, ele declinou: "Não me faça fazer isso, eu vou reprovar antes de ouvir!". Afinal, Ayres foi o responsável por revelar algumas das mais belas vozes do país; Mônica Salmaso, entre elas. Foi então que ele sugeriu Marcos Levy, o melhor arranjador de música "soul" do Brasil, para se responsabilizar por toda trilha pop do filme e dividir a assinatura da trilha original. Levy proibiu Cauã de fazer teatro no dia do teste e eu fui testemunha da tortura tonal a que o ator foi submetido. Eu já tinha desistido da empreitada quando Levy me chamou de lado e disse que ia dar certo. Com o empenho do ator, o talento de Levy e a generosa contribuição da Banda Trupe, Cauã se tornou o ídolo Bruno de André, ao vivo e a cores. Foi essencial também o fato de Paulo Ricardo ter cedido uma música inédito de seu disco "Prisma", chamada "Noites Vazias" (é óbvio que escolhi esta música como uma homenagem pessoal a Walter Hugo Khouri), para a performance do ídolo jovem. No mais, acho que tive muita sorte com todo o elenco. Djin Sganzerla é um assombro, mesmo sabendo que corre cinema em seu sangue e veias desde o dia em que nasceu. Sabe-se que é muito mais fácil transfigurar uma mulher bonita do que o contrário, mas nenhum efeito de maquiagem substitui o impacto de uma expressão contundente de exclusão. Embora apareça menos de quinze minutos em cena, Maurício Mattar foi essencial para dar credibilidade – com seu carisma, masculinidade e doçura de voz - ao personagem Luis Ronaldo, o maior cantor romântico do hemisfério; uma espécie de Julio Iglesias nativo. João Bourbonnais, Léo Áquilla, Jiddu Pinheiro, Maeve Jinkings, Vanessa Prieto, Luciana Brites e todos os demais atores talentosos vieram do teatro. Uma participação que, acredito, vai surpreender todo mundo é a de Suzana Alves, cujo imenso talento cômico e cênico vem sendo lapidado há alguns anos no grupo Macunaíma. O único ator com quem eu já havia trabalhado intensamente antes é o Bertrand Duarte, o protagonista de ALMA CORSÁRIA, que faz uma participação muito especial neste filme.
FALSA LOURA não é exatamente aquilo que a gente costuma chamar de "música para festival". É um filme em tom baixo. Eu o defino como um adágio, no sentido latino ou itálico e musical do termo: "uma sentença breve que encerra uma moralidade"; "um dos andamentos lentos da música". Este "racconto" que encerra uma moralidade, não será nunca moralizante. Trata-se de decifrar alguns códigos das paixões efêmeras e prosaicas. A mensagem é óbvia: sem estrada não há destino. Só é possível atravessar o pântano sujando as patas e saindo ileso. Aliás, a periferia neste filme é uma metáfora do pântano. FALSA LOURA é também "quase" um musical e seus quinze minutos finais estão entre o que eu filmei de melhor na vida. Como a platéia vai reagir a este adágio é uma incógnita.
Uma coisa eu prometo: toda a urgência de abstração, a fúria cinéfila lapidada nestes últimos meses de prospecção virtual e a energia insurreta armazenadas antes e após a minha ressurreição no Incor (após três pontes de safena e uma mamária incrustadas no meu Graal), eu estou guardando para o meu próximo filme, O MAR DAS MULHERES MORTAS. Aí, quem sabe, eu volte em um novembro próximo para me imolar publicamente no palco do cine Brasília.
Escrito por Carlos Reichenbach às 20h12
[]
|
|
| |
Como é bom chorar no cinema!
O BELO RETORNO DE TORNATORE

Parece que o filme foi exibido na Mostra de São Paulo e passou completamente desapercebido. "La Sconosciuta" (A Desconhecida - 2006) recebeu vários prêmios na Itália e em Moscow, mas por estas plagas foi equivocadamente desprezado. O que não é de estranhar já que no Brasil pouquíssimos críticos deram o devido valor a Luigi Comencini, o grande maestro dos sentimentos extremos. Eu me pergunto: quantos dos filmes recentes conseguem nos fazer prender a respiração por mais de uma hora e meia, na espectativa de que o pior possa vir acontecer com seus protagonistas? Irena (a excepcional Kseniya Rappoport) é uma jovem ucraniana, com um nebuloso passado de provação e humilhações, que se aproxima sorrateiramente de um casal e sua filha problemática. Empregando-se na casa do casal, Irina vai conquistando a confiança de todos, especialmente da criança. A atmosfera asfixiante desta relação torna-se quase insustentável para os protagonistas e para o público. Aguarda-se, com as mãos crispadas, o que a empregada vai fazer de tenebroso com a menina. Até os vinte minutos finais tem-se a impressão de que se trata de um filme do Polanski, da sua fase mais cruel e agônica. Tornatore vai impor sua inconfundível assinatura - desbragadamnente sentimental - somente no desfecho; e fica difícil - meus amigos - não deixar de verter as sempre incômodas lágrimas catárticas. Confesso que há muito tempo não sentia o mesmo prazer (e a mesma vergonha, claro) de chorar após um filme. De alguma maneira "La Sconosciuta" é o Tornatore mais próximo de Luigi Comencini. Só não percebe quem nunca gostou realmente do grande cinema italiano.
Escrito por Carlos Reichenbach às 00h39
[]
|
|
| |
MIX + DICAS DE BLOGS
O MARAVILHOSO MUNDO DA CINEMATECA VIRTUAL

Os puristas de plantão vão me perdoar, mas - atualmente - eu não troco nenhuma sessão privê do meu quarto pela melhor sala escura (e minúscula) dos shopping centers, com suas projeções digitais que mais parecem imensas tvs de plasma. Graças ao acesso ilimitado de títulos raros, via Web, e as trocas de acervo AVI com amigos especialistas pude conhecer, finalmente, títulos que procurei durante décadas ("Verboten!", de Samuel Fuller e "Confessions of an Opium Eater", de Albert Zugsmith, entre outros). Assisti o derradeiro e deslumbrante mergulho abissal de Leni Riefenstahl, "Impressionen unter Wasser" (Underwater Impressions), e alguns dos "produtos" pornográficos que sustentam a "arte" de Lars Von Trier (pouca gente sabe que o moço só consegue realizar aqueles filmes chatos, que tanto sucesso fazem nas rodinhas dos festivais, produzindo e dirigindo - sob pseudônimo - filmes hardcore; entre eles "Constance: Il Diario Segreto"). Mas quando o assunto é erotismo, perto de Salvatore Samperi, Joe D´Amato, Tinto Brass e Aurélio Gimaldi, o malandríssimo Lars é um autêntico neófito. Com diz com propriedade a Cristina Amaral, o tal Dogma sueco não passou de um bom golpe de marketing, que só serviu para promover a venda desenfreada de câmeras digitais PD, da Sony, pelo mundo afora. Estou tento acesso a obra - quase integral - de Damiano Damiani (um mestre absoluto, que me surpreende a cada filme novo descoberto), Georges Franju, Jean Eustache e Joseph Losey. Como fã assumido do filme policial pude ter acesso a títulos raros e formidáveis premiados no Festival de Cognac; entre eles o exemplar "La Caja 507" (Espanha - 2002), de Enrique Urbizu.

Para não me extender demais nas malhas do entusiasmo, sugiro aos fanáticos que conheçam urgentemente o maior cineasta negro da história, o falecido senegalês Djibril Diop Mambéty, autor de HYIÈNES, uma audaciosa adaptação de "A Visita da Velha Senhora", do suiço Durrenmatt, para o universo árido e mítico africano. Sua protagonista subverte gradativamente, durante o filme, todas as nossas noções caretas de beleza física.
INDICAÇÃO DE BLOGS
Blog ORFANATO PORTÁTIL http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/
Blog DEPOIS DO FILME http://depoisdofilme.zip.net/index.html
Escrito por Carlos Reichenbach às 14h16
[]
|
|