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APONTAMENTOS RÁPIDOS SOBRE FILMES RECÉM DESCOBERTOS
O FILME DO OSCAR Quem acompanha meus comentários mais antigos sabe que nunca fui fã dos irmãos Cohen. Resisti muito a conhecer o filme que - na certa - vai dar a estatueta aos moços, mas instado por um amigo, cuja opinião respeito, fui ver o filme. Estou ficando louco, mas "Onde os Fracos Não Têm Vez" é realmente um filme que não acaba (ou não sabe onde vai parar)? Confesso que passei uma hora e quarenta de olhos grudados na tela (coisa raríssima - para mim - nos filmes dos brothers); comecei a pensar que seria obrigado a reavaliar toda a obra deles. Aí, o protagonista é assassinado num motel e o que se vê - nos dez minutos finais - é mesma estratégia usual (e pedante, diga-se de passagem) dos rapazes: travestir insegurança e ausência de ousadia em discurso desmistificatório. Caramba, os Cohen, que habitualmente plageiam deus e todo mundo, poderiam ter aprendido as lições de William Friedkin; ou pelo menos, "citado" (leia-se, chupado) o magistral "Viver e Morrer em Los Angeles". Eu juro que pensei que iria sair da sessão de joelhos. Saí irritado! Trata-se do desfecho mais chato (dez minutos que parecem horas) do cinema atual.

ARGENTO CONTINUA EM FORMA "Jenifer", o episódio de Dario Argento para a série MASTERS OF HORROR é uma pepita do cinema extremo. Só um diretor que conheça profundamente as possibilidades infinitas da melhor gramática cinematográfica seria capaz de tornar verossímel a história da paixão de homens equilibrados por mulheres horripilantes, deformadas facialmente. A catadura de Jenifer é de assustar os discípulos do dr. Pitangui. Argento nos convence que a fragilidade, candura e sensualidade da menina-monstro pode levar homens comuns à loucura. Convenhamos, isso sim é ousadia. Ao contrário de certos picaretas, Dario Argento não pousa de artista ou intelectual contestador (sabe-se que o diretor possui uma sólida formação erudita); narra a sua história com uma discrição e elegância raras, sem pudor de arriscar-se ao ridículo. O que importa é tornar crível (e trágico, no sentido mais clássico do termo) uma quase absurda história de danação e canibalismo. JENIFER, o filme, surpreende por se equilibrar no tênue limite entre a delicadeza e a crueldade; está para Argento, assim como "Lições de Vida" (episódio em "Contos de Nova Iorque") ainda é para Scorsese: uma gema preciosa de pouco mais de 40 munutos de duração.
O FILME-SÚMULA DE GUILHERME DE ALMEIDA PRADO O que primeiro chama a atenção em ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?, o novo longa metragem de Guilherme de Almeida Prado, é a exacerbação das obsessões cinematográficas do diretor. Trata-se de seu filme mais autoral e, por isso mesmo, mais surpreendente (e, no caso, comovente). Todas as idéias que apareciam esboçadas em A HORA MÁGICA e PERFUME DE GARDÊNIA ou ensaiadas e exercitadas em A DAMA DO CINE SHANGAI, são explicitadas neste filme. É curioso que, mesmo fiel à dramaturgia de seu co-roteirista (o falecido escritor Caio Fernando Abreu), mais radical ao próprio imaginário se revela Almeida Prado. O investimento sem culpa ou freios na fantasia e na paixão desbragada pelo cinema, fazem de ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? uma obra emocionante, que exige de quem o assiste o exercício ou a prática da abstração. Aí é possível desfrutar do mesmo prazer de quem fez o filme. Ouso afirmar que Almeida Prado vem fazendo o caminho inverso de Pedro Almodovar, que começou realizando obras tortas, fascinantes e transgressivas (como "Matador" e "A Lei do Desejo") e terminou protocolar e "profissional" em sua rebeldia. Tem muita gente que vai torcer o nariz para as ousadias formais do diretor; que inclui quatro ou cinco finais optativos. Eu mesmo me surpreendi embarcando no falso final "languiano", com a protagonista-mito surgindo na tela de rosto mutilado. Mas este é apenas um dos desfechos possíveis na prospecção do mito. A "homenagem coral" de Almeida Prado, vai de Fritz Lang a Vincent Minelli, de Rita Hayworth, Ava Gardner a Norma Bengell. Uma encruzilhada com ínumeras ramificações, que impõe ao espectador o arremesso da moeda ao ar. Para gostar de ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? é preciso aceitar as regras do jogo concebido pelo diretor. Dulce Veiga é o cinema enxergado como entidade mítica; eis o segredo. O certo é que Almeida Prado vem se firmando com um dos autores mais pessoais e fiéis a si mesmo, em atividade. Em tempo: espantosa e deflagradora a participação da atriz Carolina Dickmann, na arriscadíssima personificação da herdeira do mito. De certa forma, o personagem me lembrou - e muito - a fascinante Jenifer, de Dario Argento.

A ESTRÉIA DE AFFLECK Competente e emocionante a estréia do ator Ben Affleck na direção, com "Gone, Baby, Gone" (Medo da Verdade). O filme, já disponível em DVD, adaptado de um livro de sucesso do mesmo autor de "Sobre Meninos e Lobos", mostra um casal de jovens detetives tentando ajudar a polícia e a família a descobrir o paradeiro de uma menina desaparecida. A trama, construída com eficiência, se preocupa menos em prender a atenção da platéia com recursos de estilo ou chantagem emocional e muito mais em enxergar amplamente o ambiente social por onde trafegam os personagens. O maior mérito do roteiro é não optar por um desfecho fácil, evitando a todo custo a solução em aberto ou a conclusão cômoda e confortável. È daqueles filmes que deixam um nó na garganta do espectador e uma dúvida abissal no protagonista: "Será que eu fiz a coisa certa?".
NOTA RÁPIDA
Acabo de descobrir que William Friedkin dirigiu "Cockroaches" (2007), o nono episódio da oitava temporada da melhor série de tv dos últimos tempos: CSI LAS VEGAS. Durante anos, seu amigo William Petersen, protagonista e produtor executivo da série, tentou convencer Bill a dirigir um dos episódios ("my show", como ele se refere). Petersen sonhava poder voltar a trabalhar com o diretor de "Viver e Morrer em Los Angeles". Quando Friedkin finalmente aceitou o convite, os roteiristas da série se apressaram em desenvolver um roteiro que incorporasse o "toque de Friedkin". O episódio, que foi ao ar nos Estados Unidos em dezembro, deverá estar sendo mostrado daqui a sete semanas no canal a cabo AXN (que agora veicula, com exclusividade para o Brasil, a oitava temporada do original da franquia). Aparentemente, alguns fãs da série estranharam as liberdades experimentadas por Friedkin no episódio, que mergulha sem pudor nos delírios do personagem Warrick (o ator negro Gary Dourdan), quando este se revela um dependente químico. Friedkin faz citações explícitas a filmes próprios (como "Bug" e "O Exorcista") e de outros diretores no episódio, incluindo a reprodução de um cenário de "2001, uma Odisséia no Espaço", no interior de uma boite de strip-tease. Vale a pena conferir!
Escrito por Carlos Reichenbach às 21h34
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