NAS TINTAS DO POLVO DE SETE TENTÁCULOS
Entre as agradáveis surpresas da I Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica, a descoberta inesperada de uma jovem confraria cinéfila antenadíssima com o veio prospectivo da crítica. Em Belo Horizonte nada se falou de editais, borderôs e mercado cinematográfico. As atenções estiveram voltadas aos canais impressos e virtuais de análise fílmica e a passagem de quem avalia à objeto das avaliações.
Foi muito bom conhecer pessoalmente Rafael Ciccarini, Ursula Rösele, Nísio Teixeira e toda a equipe da Filmes Polvo, que fizeram - literalmente - das tripas coração para que o evento acontecesse. Impressionante a eficiência da organização, abastecida com recursos homeopáticos, muito trabalho e imensa camaradagem.
Os debates foram azeitados com pitadas de polêmica; o que deixou evidente que diferenças de opinião dignificam a atividade crítica. Durante três dias de discussões acaloradas, a comprovação do truísmo barthiano: "criticar é por em crise".
Sensacional o teaser do evento exibido antes dos filmes da mostra. Uma bem humorada compilação de fragmentos de velhos filmes protagonizados por octupus; entre eles, o clássico de Robert Gordon "O Monstro do Mar Revolto", com seu polvo de sete tentáculos. Mas ao contrário do orçamento minguado de Ray Harryhausen, a I Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica esbanjou eficiência. Todos os convidados foram tratados com galhardia e as sessões e debates tiverem sempre um ótimo público.
Particularmente, o evento me possibilitou conhecer algumas das imagens mais sublimes e deflagradoras do audiovisual brasileiro recente. Refiro-me a um DVD que me foi presenteado pelo talentoso e ultra-independente cineasta mineiro Fabio Carvalho. Eu já considerava Carvalho o êmulo natural do amigo Jairo Ferreira; assim como o inventariante do cinema de invenção, Carvalho vem mantendo uma produção incansável e iconoclasta a partir das mais variadas mídias. No seu vídeo-filme mais recente, ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO, Carvalho homenageia o poeta, jornalista, dramaturgo, ator, ensaísta e professor João Etienne Filho (1918 - 1997). Carvalho havia documentado seu encontro com o poeta pouco antes de seu falecimento e o filme-vídeo foi abandonado por algum tempo. Após ter captado imagens de outra persona mitológica de Belo Horizonte, Ronaldo Brandão, lendo emocionados textos de seu velho amigo (numa seqüência arrebatadora), Carvalho concluiu sua pérola audiovisual.
Alguns meses atrás afirmei categoricamente neste espaço que as melhores imagens brasileiras que assisti nos últimos anos não foram rodadas em película, que nem mesmo se tratava de um filme no suporte convencional, mas de um vídeo-instalação: DERVIX, de Arthur Omar. A aventura de Omar foi descobrir "como captar, filmar e expor estados mentais; pensamentos sutis, comunicações alquímicas e incorporais". Enxergando o audiovisual (ou o cinema) como possibilidade de captar (e transmitir) o transe, ou ainda como afinada experiência de tensão cultural.
Sob o crivo exposto acima, incluo os extraordinários momentos finais de ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO.
Fabio Carvalho flagra o êxtase íntegro e derradeiro do poeta no mantra de seu inventário lírico:
O IDEAL DE BELEZA QUE PERSIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
O QUE HOUVE, O QUE HÁ E QUE HAVERÁ DE MIM PARA CONTIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
A MÁGOA QUE EU NÃO CONTO AO MAIS DILETO AMIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
O REMORSO DE SER JOIO ENTRE O TRIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
O QUE ME DILACERA E FINJO QUE NÃO LIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
O QUE EU HEI DE LEVAR AO DERRADEIRO ABRIGO
ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO
O QUE EU QUERO QUE SE INSCREVA EM MEU JAZIGO
ISSO É MEU E VIVERÁ COMIGO
JOÃO ETIENNE FILHO
(1918 - 1997)