MOSAICO - PARTE 2
NOTAS RÁPIDAS SOBRE ALGUNS FILMES DO MOSAICO

Miyamoto Musashi AKA Zen and Sword (Tomu Uchida - 1961) - Disponível no ASIA TEAM
Primeiro dos cinco filmes da saga dirigida pelo grão-mestre Tomu Uchida. Uma obra prima épica e reflexiva. Uma verdadeira aula de cinema, especialmente na questão da utilização do campo e contracampo. A seqüência em que Miyamoto é alçado ao topo de uma imensa árvore, ficando exposto a humilhação pública, ao calor do sol escaldante e ao frio da noite e da chuva torrencial, deveria fazer parte de todos os currículos de mise-en-scene nos cursos de cinema. Sabe-se que o "calcanhar de Aquiles" de todo estreante na direção de filmes é saber dominar a questão da quebra de eixo (uma ciência que certos realizadores despreparados deixam sempre a cargo dos fotógrafos).
Uchida nos ensina - acuradamente - como dominar o eixo na sua vertente mais complexa: a questão da altura. Em filmes assinados por diretores e fotógrafos incompetentes, nós - espectadores - nunca conseguimos perceber de imediato quem está em cima e quem está embaixo. O saudoso Oswaldo Sampaio (A ESTRADA e SINHÁ MOÇA) puxou a orelha do grande diretor de teatro Flávio Rangel, na estréia de seu único longa metragem, GIMBA, PRESIDENTE DOS VALENTES (1963) por filmar aleatoriamente uma seqüência de tiroteio na favela, onde policiais e bandidos pareciam trocar tiros a esmo (GIMBA, no entanto, permanece na nossa memória pelo belíssimo final do garoto correndo pela cidade, assumidamente uma homenagem a OS IMCOMPREENDIDOS, de Truffaut).
Finnegan´s Wake (Mary Ellen Bute - 1966) - Disponível no CINEMAGEDDON
Uma surpreendente ousadia: filmar o livro mais complexo de James Joyce. Embora a diretora assuma - na apresentação - que pretendia apenas oferecer uma leitura pessoal de certos fragmentos do livro, trata-se de uma empreitada arriscadíssima. O maior mérito de Mary Ellen Bute é conseguir transformar as palavras de Joyce em música para os ouvidos. Uma gema do cinema independente, cuja locação do VHS nos Estados Unidos custa uma fortuna.
Naked Paradise AKA Mago (Hyeon-il Kang - 1992) - CORÉIA DO SUL - Disponível no ASIA TEAM
Alguém definiu no IMDB, com muita propriedade e humor, este filme experimental coreano: "Quando A MONTANHA SAGRADA, de Jodorovski, encontra Koyanisquatsi, Salvador Dali e o Greenpeace.".
MAGO (NAKED PARADISE) tem algumas das fusões mais esquizofrênicas já vistas. Um trem de Metrô sai do interior de um túnel para mergulhar no interior da garganta de um neurótico que grita.
Hyeon-il Kang deve ter visto (e "chupado") os melhores filmes e vídeos de Arthur Omar.
O coreano mistura, sem dó nem pena, todos os ícones modernos do audiovisual mundial. As magistrais seqüências de gente pelada nada mais são do que "citações" a Spencer Tunick, o fotógrafo que vive sendo preso por despir multidões.
Hyeon-il Kang é um tremendo cara-de-pau, mas seus filmes - pela assumida apropriação descarada de idéias alheias - são deliciosos exercícios de tolerância. Conforme a disponibilidade de quem os assiste, podem irritar, fascinar, encher o saco, dar sono e até dar tesão.

Salambò (Sergio Grieco - 1960) FRANÇA - Disponível na própria pesquisa do DREAMULE
Foi Rubem Biáfora quem primeiro chamou a atenção para o talento do diretor Sergio Grieco, especificamente nos filmes de reconstituição histórica (os tradicionais "pepluns" italianos), por ocasião do lançamento brasileiro de A RAINHA DOS TÁRTAROS (1961). Realmente, Grieco possui uma austeridade que impressiona. A RAINHA, ao lado de A ESCRAVA DE ROMA (1960) e SALAMBÔ (1960 - produção francesa, adaptada de Flaubert), forma um tríptico de dar inveja aos melhores Cottafavis e Fredas do gênero. Ao contrário da maior parte dos "pepluns", as reconstituições históricas de Grieco primam pela acuidade, frutos de uma pesquisa rigorosa, mas que não abdica da liberdade poética (normalmente só detectáveis nas melhores encenações teatrais). Pela elegãncia, os "pepluns" de Grieco lembram os filmes "shakespearianos" de Orson Welles e a classe de Joseph Mankiewicz. As seqüências de multidão e batalha são decupadas com beleza e rigor; isso sem falar de suas protagonistas, sempre filmadas com generosidade (Rosana Podestá, Chelo Allonso e a linda Jeanne Valerie, de SALAMBÒ). A trilogia de Grieco explicita as nuances que separam o cinema clássico do acadêmico.

A Quiet Place to Kill AKA Paranoia (Umberto Lenzi - 1970) - Disponível no CINEMAGEDDON
Umberto Lenzi é um realizador da estirpe de Joe D´Amato, Ruggero Deodato e Jesus Franco. Prolíficos, fizeram filmes demais, exercitaram quase todos os gêneros, erraram muito, mas - quando acertavam - legaram obras magníficas.
O blog do Leandro Caraça (VIVER E MORRER NO CINEMA) republicou uma imensa entrevista de Lenzi, onde o diretor confessa que PARANÓIA aka A QUIET OLACE DO KILL aka ORGASMO é o seu filme preferido.
Difícil catalogá-lo como um "giallo" convencional. O filme possui todas as qualidades habituais dos melhores policiais baratos (e eficientes) de Lenzi.
Para quem já foi chamado de "sub-Deodato", por conta dos filmes canibais, Lenzi demonstra mais talento para filmar ação que seu referido "mestre". Como bom artesão, ele sempre me pareceu mais próximo de Duccio Tessari e Bruno Corbucci. Por não se fixar num único gênero, acabou sendo relegado ao terceiro escalão; injustamente. É incrível como - sistematicamente - se desprestigia, pelo arraial da crítica convencional, os chamados "paus para toda obra". Sobretudo nas plagas onde é comum enaltecer a perfumaria, o modismo, a falsa eficiência e a esquisitice.
Escrito por Carlos Reichenbach às 14h56
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